Pastor Mirim, Crianças na TV e o Direito de Ser Criança (ou Celebridade Mirim, o que vier primeiro)

Nos últimos dias, o Brasil ficou dividido entre dois grupos: os que acham que o Pastor Mirim precisa urgentemente de um recreio e os que acreditam que ele já é a reencarnação de Billy Graham com um toque de TikTok. O adolescente Miguel Oliveira, de 15 anos, foi proibido de pregar e usar redes sociais por tempo indeterminado após protagonizar cultos em que rasgava “laudos médicos” e dizia curar doenças como câncer. Sim, entre uma aula de matemática e outra, ele resolveu brincar de Messias.

Por um lado, temos o bom senso — ou, como também é conhecido, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) — que afirma com todas as letras que crianças e adolescentes devem ser protegidos de qualquer forma de exploração, inclusive religiosa. Afinal, Miguel é um adolescente. Em vez de “curar” câncer, talvez devesse estar lidando com problemas mais realistas da idade, como espinhas, boletins vermelhos ou crises existenciais causadas por séries coreanas.

Mas calma lá, antes que você jogue a Bíblia (ou o Código Penal) na cabeça do garoto, é preciso refletir: se ele estivesse no lugar de uma novela da Globo interpretando um papel de órfão sofredor, chorando cinco vezes por episódio e sendo sequestrado duas vezes por temporada, estaria tudo certo? Crianças em novelas trabalham horas, gravam cenas pesadas, fazem turnês de divulgação e, ainda assim, ninguém aciona o Conselho Tutelar. Pelo contrário, ganham prêmios, seguidores e contratos de publicidade. Aparentemente, se você tem uma mãe-agente e um contrato com a emissora certa, já nasce com alvará de trabalho.

O que incomoda tanto no “pastor mirim” talvez não seja o fato de ele estar em atividade pública, mas sim o conteúdo — e a forma como ele reproduz discursos adultos sem o filtro da crítica. Quando um menino de 15 anos grita que cura doenças com fé, não estamos mais no território da expressão religiosa, estamos em terreno escorregadio, onde o fervor vira desinformação, e o púlpito se mistura perigosamente com a plateia vulnerável da internet.

Por outro lado, é impossível ignorar que adolescentes também têm ideias, fé, voz — e que têm, sim, o direito de expressá-las. Não estamos falando de um bebê que balbucia um sermão por comando dos pais; estamos falando de alguém que claramente acredita no que faz. A pergunta que fica é: onde termina o direito à fé e começa a responsabilidade dos adultos em protegê-lo (dele mesmo, inclusive)?

A linha entre expressão e exploração é tênue. O que precisamos é de equilíbrio. Nem todo pastor adolescente precisa ser silenciado com uma ordem judicial, assim como nem todo ator mirim merece ganhar um Emmy enquanto ainda está na alfabetização. Crianças são pessoas em formação, e se transformá-las em celebridades — de púlpito ou de novela — não for feito com critério e acompanhamento, o resultado pode ser desastroso.

Miguel pode ser um garoto brilhante, mas talvez agora o que ele mais precise não seja de um palco, mas de um bom orientador pedagógico, uma conversa franca com psicólogos e um Wi-Fi com controle parental. Afinal, se tem uma coisa que Deus não quer é ver uma criança queimando a etapa da infância só pra virar trending topic.

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