Odete Roitman chegou!
Prepare o uísque, esconda os valores e trave as portas: Odete Roitman desembarcou no remake de Vale Tudo e, como diria ela mesma, “o Brasil que lute”. A TV Globo, que completa respeitáveis 60 anos agora em 2025, resolveu dar de presente ao público uma nova versão de sua novela mais ácida, atual e incômoda — e, claro, ressuscitou a vilã mais temida do horário nobre.
Odete voltou. E, olha... voltou com opinião.
Interpretada agora por Débora Bloch, a nova encarnação da empresária rica, preconceituosa e absolutamente insuportável já chegou metendo os dois pés na porta — e na autoestima da filha, Heleninha (vivida por Paolla Oliveira, que merece um abraço coletivo). Débora não tenta ser Beatriz Segall — e ainda bem. Ninguém precisa competir com um fantasma que paira sobre a dramaturgia como um tapete persa de mil fios: elegante, pesado e impossível de ignorar. Bloch encontrou sua própria vilã, com o mesmo veneno da anterior, mas destilado em taças de cristal contemporâneas.
Claro que a internet surtou. Teve quem amou, teve quem odiou. Teve fã raiz gritando “isso não é Odete Roitman!” como se a personagem tivesse nascido de uma partitura sagrada. Mas convenhamos: em 2025, com redes sociais como arena de gladiadores e fake news como prato principal no almoço, nada mais atual do que uma vilã que fala absurdos com pose de elite culta. Odete encaixa perfeitamente no Brasil de hoje — país que continua discutindo se é errado ou não passar a perna nos outros “pra subir na vida”.
O remake, adaptado por Manuela Dias, não apenas traz a trama para os dias atuais, como mantém o cinismo que fez Vale Tudo se tornar um clássico. A pergunta “vale a pena ser honesto no Brasil?” continua dolorosamente pertinente. E o mais curioso? Em pleno ano em que a Globo tenta se redescobrir — entre streaming, crise de audiência e concorrência digital — a aposta em uma história de 1988 é, paradoxalmente, uma das decisões mais ousadas da emissora.
Só que, sejamos sinceros: o Brasil mudou, mas nem tanto. A corrupção continua fazendo hora extra, a elite ainda olha o povo de cima e a fila da honestidade segue curta. Nesse cenário, o retorno de Odete Roitman não é apenas uma reestreia — é uma visita guiada aos nossos próprios vícios. Ela é o espelho torto da sociedade, agora com um figurino novo e uma atriz que encara o papel sem medo de apanhar (verbalmente, por enquanto).
Débora Bloch está entregando uma Odete menos imperial, mas igualmente cruel. Ela não entra no ambiente como se fosse dona do mundo — ela tem certeza de que é. E talvez seja esse o ponto que incomoda: em tempos de ultrassensibilidades e polarizações, ver uma mulher rica, branca e autoritária ditando as regras da realidade é desconfortável. Mas é também necessário. A arte não veio pra nos agradar — e Vale Tudo nunca prometeu carinho.
Portanto, celebremos. A vilã voltou. E, gostando ou não, ela ainda é o termômetro do que nos desespera. Se Odete Roitman continua assustando em 2025, é porque o Brasil ainda não aprendeu a lição que a novela tenta ensinar há quase quatro décadas. E, cá entre nós, não parece que vai aprender tão cedo.

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